ACIDENTES E TRAGÉDIAS NO TRÂNSITO. DE QUEM É A CULPA?

sexta-feira, 2 de maio de 2008 Karine Winter


Infelizmente vivenciamos mais uma tragédia nas estradas de Santa Catarina, no dia 09 de outubro de 2007. Um acidente de grandes proporções e que deixou 27 mortos e praticamente 90 feridos na BR-282, próximo ao município de Descanso, no extremo-oeste catarinense, quando uma carreta bateu contra um ônibus. Cerca de duas horas depois do primeiro acidente, no momento em que diversos profissionais como bombeiros, policiais, socorristas do SAMU e várias outras pessoas trabalhavam no resgate das vítimas, uma carreta desgovernada atingiu tudo o que estava pela frente, atropelando curiosos, jornalistas, bombeiros e os policiais que observavam, atendiam e socorriam as vítimas. Dois acidentes num mesmo local. O estado amanheceu em estado de choque e de luto.
Mais uma vez estamos frente à mesma situação de sempre, só que desta vez o número de vítimas e a forma como aconteceu principalmente o segundo acidente, comoveu a todos. As carretas e os caminhões são os “elefantes” do trânsito. Quase indestrutíveis essas máquinas poderosas – e muitas vezes mortíferas – têm inconvenientes próprios de seu peso e tamanho que precisam ser rigorosamente observados e respeitados para que funcionem para executar a função para a qual foram concebidas: o transporte de cargas de forma segura e confiável. O pior dessas estatísticas é verificar que a imensa maioria dos mortos não são os ocupantes do caminhão, mas sim os condutores e passageiros de veículos menores, absolutamente indefesos nesse confronto desproporcional. Nos choques entre dois veículos, sendo um deles de passeio e o outro grande e de carga, 98% das vítimas fatais são dos veículos menores. Por isso, respeitá-los é preciso e compreender a mecânica, o deslocamento e os limites desses “gigantes do asfalto” são condições básicas de segurança e até de sobrevivência para quem circula sempre ou eventualmente pelas nossas estradas.
Violência por definição, é um comportamento humano que vise ou possa causar dano à outra pessoa, ser vivo ou objeto.
A violência no trânsito, representa um grave problema de nossa sociedade. Ocorre a cada instante e certamente dispomos das condições necessárias e suficientes para apresentar soluções e reduzir os seus efeitos. O principal fator da violência no trânsito no Brasil, é o fator humano. A imprudência, a negligência, a falta da percepção do risco, a displicência, o desconhecimento, a desobediência e a impunidade são as maiores causas dessas tragédias. Sem dúvida, existem deficiências técnicas, de infra-estrutura e de engenharia em nosso sistema viário, mas sabe-se que apenas 10% dos acidentes têm como causa as falhas mecânicas e a má conservação das estradas e rodovias. Entretanto, condutores, motociclistas, ciclistas e, até mesmo pedestres muitas vezes são incapazes de cumprir as regras de circulação e de boa convivência no trânsito. Não obedecem à sinalização, nem os limites de velocidade, muitos avançam o sinal vermelho e falam ao celular enquanto dirigem. Sem contar os que por muitas vezes, dirigem embriagados ou sem habilitação. O mais interessante de tudo isso, é que a maioria desses condutores não admite que comete essas infrações. É esse tipo de comportamento perigoso que gera o risco e que provoca os acidentes de trânsito. Verifica-se hoje, que ocorre excesso de tempo de trabalho na jornada dos motoristas rodoviários que trafegam pelas rodovias e estradas brasileiras. A categoria dos caminhoneiros, principalmente, apresenta uma das maiores cargas horárias de trabalho. Os resultados observamos estampados nas páginas dos noticiários e jornais. Segundo informações da Polícia Rodoviária Federal, aproximadamente metade dos caminhoneiros dorme muito pouco durante as viagens, em média de três a quatro horas por noite. Cerca de 30% tem problemas de visão e precisariam usar óculos. A alimentação é outro fator preponderante, em geral é inadequada, o estresse e o uso inconseqüente de remédios completam a explosiva fórmula. Sem contar a falta de repouso que ainda é o principal problema vivido pelos motoristas e que muitas vezes os tornam uma verdadeira bomba-relógio ambulante.
Não podemos esquecer da velha e boa manutenção preventiva nos veículos. A maioria dos automóveis, ônibus, caminhões e motocicletas que circulam pelas estradas, não passam pela manutenção mecânica e preventiva o que certamente poderia evitar vários acidentes. Uma simples verificação do sistema elétrico, do sistema de freios e de outros componentes seria o suficiente para oferecer menos riscos a todos que trafegam pelas estradas brasileiras.
Em tudo que fazemos há uma certa dose de risco: seja no trabalho, seja brincando, no lazer, praticando algum esporte ou mesmo transitando pelas ruas e estradas. Quando uma situação de risco não é percebida, quando uma pessoa não consegue visualizar o perigo ou ainda, quando ela tem noção do risco, porém o ignora, as chances de acontecerem acidentes são muito grandes. Além dos prejuízos financeiros, das questões legais, o sofrimento das pessoas causado pelas mortes pelos ferimentos, pelas seqüelas físicas e mentais muitas vezes irreparáveis dos sobreviventes, poderiam ser evitadas se todos nós tivéssemos maior cautela, prudência, bom senso, tolerância, paciência e respeito no trânsito, ou seja, se fossemos literalmente mais educados. É possível comprovarmos mais uma vez que a afirmativa da psicóloga, autora de vários livros e especialista em trânsito Neuza Corassa, está correta: “O homem dirige como vive.” PENSE NISSO!




Autoria de: Karine Winter